INCÊNDIO
Vi a menina procurar pela mãe, na multidão em frente ao
edifício que pegara fogo, e ninguém dizer-lhe onde estava ela. E
a menina sabia que a mãe morrera; sabia de vaga notícia, de
obscura ciência, como essas coisas se sabem sem necessidade
de testemunho. Ela passeava entre populares e fotógrafos o seu
rostinho contraído, sua vozinha de choro, su
palavras. E quando apareceu um bombeiro para dizer
pessoa morta não devia ser sua mãe, todos os sinais
tranquilizadores que ele dava eram precisamente sinais
confirmativos da perda. E a menina era apenas uma dor humilde,
entre outras que latejavam naquele momento em meio à
confusão das providências para apagar as chamas e salvar as
vidas...
(ANDRADE, Carlos Drummond. Auto-retrato e outras crônicas. RJ:
Record, 1989)
O trecho relatado acima é parte da crônica de Carlos Drummond de Andrade, Auto-retrato e outras crônicas, e sabe o que me chama a atenção é a data desse texto 1989.
Após vinte e três anos, 25 de janeiro de 2012 três prédios desabaram na cidade do Rio de Janeiro; assim como a menininha que procurava pela mãe; vi pela televisão famílias procurar pelos parentes e entre boas notícias e histórias lindas pra contar estavam as dores, as lagrimas e o sofrimento da famílias em toda aquela confusão, isso por não saber se quer onde estava o corpo do parente. Em meio a tudo isso a continuação na crônica me traz umas reflexão.
"...Desses homens e mulheres sacrificados no último incêndio
pode dizer-se que morreram antes da hora, não de sua própria
morte, mas de outra improvisada e injusta. Arde uma casa e as
chamas não matam ninguém. O que mata é a fuga ao incêndio, é
a impossibilidade de fugir a ele, nesses edifícios onde tudo foi
previsto menos o resguardo da vida de seus moradores. É o
despreparo, a omissão, o que-nem-me-importa com o que possa
acontecer, porque na maioria dos casos não acontece nada, os
incêndios não são diários e metódicos. Vivemos sob o signo da
ameaça, e com ele nos habituamos de tal modo que nem o
sentimos. Todos esses edifícios, amontoados, colados, como um
rebanho denso, toda essa gente dormindo ou trabalhando em
seus milhares de escaninhos no ar, sem garantia a não ser o
acaso, previsão, sem consciência do perigo, até que um dia a
moça loura se agarra desesperadamente a uma corda e depois
arria como um balão tascado... É de arrepiar..."
Muitos foram sacrificados no desabamento na cidade do Rio de Janeiro "...morreram antes da hora, não de sua própria morte, mas de outra improvisada e injusta..." fazendo um paralelo vamos dizer que não é todo dia que se cai um prédio e ainda mais três de uma vez só, então não precisamos nem ligar pra isso? ERRADO! Realmente a palavra omissão traduz o que vemos de tempo em tempo, mas que causa dores profundas "...Vivemos sob o signo da ameaça, e com ele nos habituamos de tal modo que nem o sentimos. Todos esses edifícios, amontoados, colados, como um rebanho denso, toda essa gente dormindo ou trabalhando em seus milhares de escaninhos no ar, sem garantia a não ser o acaso, previsão, sem consciência do perigo, até que um dia..." até que um dia eu tenha que ver ou ouvir a história de algumas pessoas que escaparam por pouco e muitos morreram sem a chance de fugir em meio a um mar de concreto e insegurança. Como disse Drummond, é de arrepiar!!!
Até poderia acabar aqui, mas um desabamento de um prédio em SP deixa uma criança morta. E o que muda? Apenas uma estatística para o nosso lamentável quadro, nossa medíocre mente esquece rápido a tragédia do próximo "Amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar ao próximo como a si mesmo é mais importante do que todos os sacrifícios e ofertas". (Marcos 12:33 NVI - grifo do autor). Se colocarmos a data de hoje na crônica de Drummond parece que nada mudara, apenas a estatística porque nossos sentimentos serão os mesmos, apenas espectadores de dramas.
Oremos por todos! "A oração de um justo é poderosa e eficaz." Tiago 5:16 - NVI
Thiago Oliveira

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